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Backtest sem look-ahead: por que o P/L de 31/12 mente

Há um erro silencioso em quase todo backtest de ações brasileiras. Ele não dá erro na tela, não aparece no gráfico — só infla o resultado e faz uma estratégia medíocre parecer genial. Chama-se viés de look-ahead.

O erro

Você quer testar uma estratégia de "comprar ações com P/L baixo". Pega o lucro do balanço de 2023 e divide o preço de 31/12/2023 pelo lucro. Parece certo. Não é.

O balanço anual de uma empresa com exercício encerrado em 31/12 não existe publicamente em 31/12. Ele é publicado meses depois — tipicamente entre fevereiro e março do ano seguinte. Usar o preço de 31/12 com esse lucro é usar uma cotação que o mercado tinha antes de conhecer o número. É viajar no tempo: o backtest "sabe" um resultado que ninguém sabia naquele dia.

Por que isso engana tanto. Empresas que vão reportar um lucro ótimo tendem a já ter subido até a divulgação. Casar o lucro bom com o preço barato de meses antes captura exatamente esse movimento — um retorno que nenhum investidor real poderia ter capturado, porque a informação não existia. O backtest brilha; a estratégia, ao vivo, decepciona.

O jeito certo: ponto-no-tempo

O múltiplo tem que usar o preço do primeiro pregão a partir da data em que o balanço ficou público — não o fechamento do exercício. Assim o P/L reflete o que você poderia ter pago, com a informação que realmente existia.

Caso real, medido no nosso banco — a DFP de 2025 da WEG:

31/12/2025fim do exercício. O lucro do ano já "aconteceu", mas ninguém o conhece ainda.
25/02/2026a CVM recebe a demonstração. Só agora o número é público.
26/02/20261º pregão a partir da publicação → este é o preço que o Dados B3 usa para o P/L de 2025.

São quase dois meses de diferença. Multiplique isso por centenas de empresas e 16 anos, e o viés de look-ahead vira a diferença entre um backtest honesto e uma ilusão.

Como o Dados B3 faz

Todo múltiplo (P/L, P/VP, EV/EBITDA anual; P/L TTM trimestral) usa o preço do 1º pregão a partir do dt_receb — a data real em que a CVM recebeu o documento, gravada na própria capa. Nada é casado com o fechamento do período. E o número de ações usado é o do snapshot vigente naquela data, não o do fim do exercício — para um desdobramento no meio do caminho não quebrar o market cap em silêncio.

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