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Guia · Estratégia quantitativa
Como usar a Fórmula Mágica (Greenblatt) na B3
Joel Greenblatt propôs, em "The Little Book That Beats the Market", uma peneira de duas perguntas: a empresa é boa (rende muito sobre o capital) e está barata (gera muito lucro por preço)? A Fórmula Mágica ranqueia cada ação pelos dois fatores e soma as posições. Menor soma, melhor.
Os dois fatores
Não é um número só — são dois rankings independentes, depois somados:
O earnings yield mede quão barata a empresa está: quanto de lucro operacional (EBIT) ela entrega para cada real do preço de aquisição (o EV, que inclui a dívida que você herdaria). Quanto maior, mais barata.
O ROIC mede quão boa é a empresa: quanto ela rende sobre o capital que de fato emprega no negócio. Quanto maior, melhor o negócio. Greenblatt usava earnings yield e retorno sobre capital justamente porque um responde "está barata?" e o outro "vale a pena ser dona?".
Como o Dados B3 calcula (auditável, ponto-no-tempo)
Ranqueamos as empresas por earnings yield (do maior para o menor) e, separadamente, por ROIC (do maior para o menor). Cada empresa recebe duas posições; somamos as duas. A menor soma é a melhor colocada na Fórmula Mágica.
O EBIT vem da conta CVM padronizada; o EV usa valor de mercado + dívida líquida; e o preço é ponto-no-tempo — o do primeiro pregão após a publicação real do balanço, sem look-ahead (veja /guias/backtest). Cada número carrega a conta de origem, então dá para conferir peça por peça.
Os filtros — e por que existem
- Fora os bancos e instituições de intermediação. O próprio Greenblatt exclui financeiras. Um banco (ou uma seguradora de intermediação, como IRB e BB Seguridade) não tem EBIT nem "dívida líquida" no sentido operacional — a dívida é o negócio, não um custo de capital, e aplicar EBIT/EV ali produz lixo. Já uma seguradora que reporta operacionalmente (EBIT e receita no plano de contas comum), como a Porto Seguro, entra normalmente — por isso aparece nos exemplos abaixo. (Detalhe em /guias/analisar-banco.)
- Fora as micro-caps (só valor de mercado acima de R$ 2 bi). Numa empresa ilíquida, um EV minúsculo faz o earnings yield estourar para números absurdos — é ruído, não barganha. O corte de tamanho tira esse falso positivo.
Exemplos reais do ranking (2025)
Empresas bem colocadas na Fórmula Mágica da B3 hoje, com os dois fatores abertos:
| Ação | Empresa | Earnings yield (EBIT/EV) | ROIC |
|---|---|---|---|
| WHRL3 | Whirlpool | 21% | 88% |
| PLPL3 | Plano & Plano | 19% | 47% |
| IGTI3 | Iguatemi | 18% | 15% |
| LEVE3 | Mahle Metal Leve | 16% | 42% |
| PSSA3 | Porto Seguro | 15% | 57% |
| POMO3 | Marcopolo | 14% | 20% |
| CURY3 | Cury | 12% | 101% |
Repare a lógica dos dois eixos: WHRL3 combina barato (EY 21%) com negócio excelente (ROIC 88%). CURY3 tem ROIC altíssimo (101%), mas já não está tão barata (EY 12%). É a soma dos dois ranks que decide — não um fator sozinho.
A armadilha — o que a peneira NÃO vê
A Fórmula Mágica é uma peneira mecânica, não uma recomendação. Três cuidados:
- Um earnings yield alto pode ser lucro cíclico no pico — o EBIT de uma commodity no topo do ciclo some no vale (veja /guias/analisar-commodities). Também pode ser uma empresa em declínio, "barata" porque o mercado já precifica a queda.
- Um ROIC altíssimo de holding costuma ser artefato contábil, não retorno operacional real (veja /guias/analisar-holding).
- Greenblatt propôs a fórmula como uma cesta diversificada (dezenas de nomes) mantida por cerca de um ano — não uma ação isolada. O método é estatístico; não substitui o julgamento sobre cada empresa.
Como o Dados B3 ajuda
EBIT, EV, dívida líquida e ROIC vêm todos com a conta CVM de origem e preço ponto-no-tempo. O ranking da Fórmula Mágica sai pronto e auditável — dá para reproduzir cada posição a partir dos dados brutos. Veja o /ranking e a /metodologia.