← Voltar ao início EN
Metodologia aberta

O dinheiro estrangeiro move a bolsa brasileira?

O dinheiro estrangeiro move a bolsa brasileira?

O gráfico do "estrangeiro na bolsa" quase nunca sai sozinho no noticiário: vem com a leitura causal colada — "estrangeiro voltou, bolsa sobe". Esta página mede o que dá para medir com fonte que se sustenta, e publica o resultado inteiro, inclusive a parte que desmancha a leitura.

Antes do número: o que está sendo medido

Não é o gráfico da B3. Aquele é o saldo de compra e venda do investidor não-residente no pregão. Este é capital cruzando a fronteira, pelo registro cambial do balanço de pagamentos do Banco Central. Correlacionam e contam histórias parecidas; não são o mesmo número.

Por que não usamos o da B3: em 16/08/2026 já eram sete caminhos testados sem achar fonte pública estável e legível por máquina. O último foi o Boletim Diário (BDI) — a aplicação é renderizada em JavaScript, o que ela entrega são PDFs, e o próprio site avisa que boletins com mais de 20 dias só existem no acervo. Um raspador em cima disso quebraria sem aviso a cada mudança de layout, e a série histórica teria de ser remontada de PDF. É o oposto do que este banco se propõe a ser.

As duas séries

Fluxo investimento estrangeiro em carteira (ações), líquido mensal, US$ milhões — metodologia
Mercado retorno total do nosso índice de mercado, com dividendos reinvestidos — metodologia

O retorno mensal usa o último ponto do índice em cada mês e é calculado em logaritmo, que é o que soma ao longo do tempo e mantém simétrico um +50% seguido de um −33%.

Por que em duas moedas

O fluxo é em dólar; o índice, em real. Um ano de bolsa +20% em reais com dólar +25% é prejuízo para quem trouxe dólar — e é o resultado em dólar que decide se aquele capital fica. Publicar só a versão em reais responderia com número certo a uma pergunta que não é a do investidor estrangeiro.

O câmbio é o dólar de venda diário (série 1 do SGS, identificada pelo nome no catálogo de dados abertos do BCB). Guardamos o diário e definimos o fim de mês nós mesmos, em vez de usar a série mensal pronta: o retorno que interessa é o nível do índice no último pregão do mês convertido pela taxa daquele dia. Média mensal responde outra pergunta, e a diferença aparece justamente nos meses de virada brusca — os que mais importam numa análise de fluxo.

A conversão é feita no nível antes de dividir, nunca no retorno já pronto. Os dois caminhos dão números próximos e diferentes, e o errado passa despercebido porque continua plausível. O invariante I-X07 trava isso.

O resultado

Fotografia de 16/08/2026, com 122 meses (2016-05 a 2026-06). Os números abaixo são uma cópia congelada, para citação. A tabela que se recalcula a cada mês está em /macro/fluxo-e-mercado, e é ela que manda — esta página descreve o MÉTODO. (Um comparativo nosso já envelheceu em silêncio por carregar número escrito à mão; a data acima existe por causa disso.)

Defasagem Leitura Em R$ (Pearson · Spearman) Em US$ (Pearson · Spearman) Meses
-3 retorno → fluxo +3m +0,02 · +0,03 -0,01 · -0,03 119
-2 retorno → fluxo +2m -0,07 · -0,11 -0,09 · -0,13 120
-1 retorno → fluxo +1m +0,14 · +0,10 +0,20 · +0,16 121
0 mesmo mês +0,47 · +0,38 +0,51 · +0,46 122
+1 fluxo → retorno +1m +0,03 · -0,06 +0,05 · -0,03 123
+2 fluxo → retorno +2m -0,14 · -0,16 -0,07 · -0,11 124
+3 fluxo → retorno +3m -0,05 · -0,04 +0,01 · +0,02 124

Pearson mede relação linear; Spearman mede a mesma coisa sobre postos, e vai junto de propósito: um mês de pânico (março/2020) domina o Pearson sozinho, e a divergência entre os dois é a informação de que o resultado depende de poucos meses.

Como ler (a leitura vale enquanto a ordem de grandeza valer)

Mesmo mês: +0,47 (R$) e +0,51 (US$). Forte — e quase mecânico. O dinheiro entra enquanto o mercado sobe, e a própria compra empurra o preço. Este número não diz nada sobre previsão, que é exatamente como o gráfico do noticiário costuma ser lido.

Fluxo antes, retorno no mês seguinte: +0,03. Praticamente zero — e por postos fica levemente negativa. Nestes 123 meses, saber que o estrangeiro entrou não valeu nada para o mês seguinte.

Retorno antes, fluxo no mês seguinte: +0,14 (R$) e +0,20 (US$). Maior que a direção contrária, nas duas moedas e nas duas medidas. O que o dado parece mostrar é dinheiro seguindo o mercado, não puxando.

A assimetria entre −1 e +1 é o achado desta página, e ela inverte a manchete: o estrangeiro se parece mais com quem chega depois da alta do que com quem a provoca.

Limites, sem rodeio

  • Correlação não é causa. Fluxo e retorno respondem juntos a juros americanos, preço de commodity e risco político. Uma terceira coisa mexendo nos dois é o caso comum, não a exceção.
  • Um país, um regime, ~10 anos. O índice de mercado começa em 2016 e é isso que limita a janela. Dá para recusar uma afirmação; não dá para estabelecer uma regra.
  • Não testamos significância estatística, e não publicamos p-valor. Com uma série temporal autocorrelacionada, o p-valor ingênuo é otimista demais e daria falsa autoridade a números que aqui já são pequenos.
  • Isto é um mapa descritivo, não regra de decisão. Fluxo que entrou não é sinal de compra.

Invariantes

id o que trava
I-X05 toda cotação de câmbio é positiva e dentro de faixa possível
I-X06 nenhum salto cambial acima de 15% entre pregões vizinhos
I-X07 retorno em US$ = retorno em R$ − variação do câmbio
I-X08 toda correlação publicada carrega o próprio n, e n nunca é pequeno o bastante para ser ruído
I-X09 a correlação do mesmo mês é a maior de todas

O I-X09 não é palpite sobre o mercado: é teste de montagem. Fluxo e retorno do mesmo mês compartilham a causa, então a defasagem zero tem de dominar. Se uma defasagem distante aparecer maior, o alinhamento de datas está torto — mês deslocado, competência lida como a seguinte, câmbio casado com o mês errado. É a mesma classe de erro que produziu "Tecnologia +2809% na semana" no índice setorial, e que só foi pega porque alguém perguntou se o número era possível.

O I-X08 existe porque correlação é o número mais fácil de publicar sem contexto: |0,5| com 8 meses e |0,5| com 120 meses são resultados diferentes e imprimem igual. Se a amostra encolher, a linha some da página em vez de sair com asterisco.